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A infinitude do vazio ante a vertigem de CA CAU

A atividade artística e, por extensão, a cultural, paradoxalmente se estimula pela necessidade, quer seja individual ou social, objetiva ou subjetiva, e mais se revela quando se instrui dentro das mais diversas prisões proporcionadas pelo ser ou pela sociedade.

A atuação múltipla de um artista, genericamente, é a condição maior da busca em torno do que é infinito no âmbito da criação. Os artistas criam universos e neles habitam ou, a partir deles, indicam portais a outras amplidões do espírito. Quanto maior a fecundidade de suas elucubrações e ações, mais amplas se mostram as potencialidades permissíveis àqueles que podem ultrapassar esses portais da imaginação.

CA CAU, cantor, compositor, poeta, autor teatral e coordenador de uma ONG anuncia-se como tal, além dos substratos de papel, dos sons, dos gestos e das atribulações da terceira via. Também artista plástico, além do arroubo de natureza íntima sobre telas, ele se reconstrói de formas diversas: nas nuanças, nas sombras, maneira labiríntica ou anunciativa, e até como gestualização do corpo. Sons, silêncios, espectros, fantasias, tudo é enigmático para a conquista da subjetividade de quem o vê, o lê, o tenta decifrar ou, simplesmente, aderir ao campo de tantos mistérios.

Ao vislumbrar não mais que a multiplicidade de sua arte embutida nesta mais recente apropriação criativa, mesmo sabendo da impossibilidade de total abstração, o que ousamos foi atentar para as dimensões a se descortinarem em nossa recepção simbólica. Não queremos ser aqui um juiz, um crítico ou um ansioso acadêmico ante os objetos e gestos da criação de CA CAU, senão apenas um apreciador e partícipe dessas esferas.

Por isso, circundamos a imensidão desse cosmos como um poeta diante da grande explosão dos mistérios... Seguimos, passo a passo, em busca do âmago das enunciações, feito um peregrino dos delírios e dos assombros. E nos regozijamos nesse desenlace...

No princípio, o Verbo engastado no enigma-título de orientação concreta, quadrado de células alfabéticas. Mais nada. A evidência se torna escusa da linguagem quase de Babel. É com minúsculas que o labirinto se anuncia: omistériootempoempoesias. Poesia em sentido lato, de “poíesis”, ação de fazer, criar, alguma coisa.

Símbolos, signos, grafismos percorrem e se entrelaçam entre cores e palavras. Dentro-fora ou sólido-sublimado ou ação-paralisia, correr o risco é atirar-se na vertigem proposta pelo artista. O libertário insinua que a desilusão é o desejo da vontade do ser humano. Verdade perversa, mas que carrega “todas as dores/Todas as cores/Todos os amores.”

O Homem é a sua própria manifestação, quer seja sob o recorrente manto azul – o céu que a tudo cobre? - ou a sua própria cruz – ele, de braços abertos? -, minúsculo, quase nada, tentando locomover-se até atingir o centro de todas as coisas.

Tanto as mãos abertas que ladeiam a mandala, as máscaras desfiguradas ao centro escurecido da angústia, os pilares que sustentam o artista, tudo se transfigura como pensamentos que brilham em olhos de sábios ou como delírios que queimam o corpo e a alma.

A condição do artista é a da vertigem. O mundo é muito mais o seu universo interior a se propagar em cores e símbolos aos olhos do espectador, que se aniquila, como se estivesse diante de uma esfinge.

Quando se verte em palavras, CA CAU se recusa ao hermetismo. São palavras,  e mesmo plenas de enigmas, denotadas a cumprir o ritual da perplexidade, da denúncia, da investidura no sentido humanitário. Invadido por uma tentativa de compreensão desiludida do mundo, quando poeta, ele denuncia tudo: o óbvio, “o não pensar / o não questionar / o não existir / o não!” , tendo a consciência de que se é “Sendo nada. / Sendo tudo.”

Assim, descobrir a finalidade dessas manisfestações do espírito é perceber-se diante de um vazio que mais se avoluma. Cada um, diante dos atos e gestos, se representa entre as cores e as palavras, espelha-se e, ao fim, se reflete absurdamente. Assim se constrói o mundo vertiginoso de CA CAU: verdadeiramente, sem nenhuma verdade absoluta. Assim.

jorge pieiro, escritor,
do não-lugar que é panaplo, século XXI.