Cacau e Poesia
Palavra, imagem, som e gesto se transformam em poesia, pintura, música e teatro para culminar no livro O Misteriootempoempoesias, de Cacau Brasil. O mineiro radicado no Ceará há quase 10 anos lança o primeiro livro de arte-poesia com múltiplos acontecimentos: exposição de 15 telas com poemas e símbolos; vídeo-instalação que induz o espectador a ser o personagem; Pilares da Poesia estimulando novas percepções; e uma performance cênico-musical utilizando técnicas de teatro de rua. O evento aberto ao público ocupará quatro salões do multiespaço Mariana Furlani Arte Contemporânea, de 9 a 29 de junho.
Editado pela Fundação Demócrito Rocha, o livro é dedicado "ao tempo, a todos, a tudo e ao nada. Na presença e na ausência, as incertezas e dúvidas. No divino ato de viver, no mistério da vida". Tem projeto e coordenação gráfica de Deglaucy Jorge Teixeira que trabalhou com arte as 80 páginas em papel couchê, inserindo imagens dos quadros e páginas coloridas com os poemas. Na apresentação, o escritor Jorge Pieiro observa que "símbolos, signos, grafismos percorrem e se entrelaçam entre cores e palavras".
O autor, José Carlos Costa Júnior ou Cacau Brasil, é cantor, compositor, poeta, autor teatral e coordenador da ONG Tapera das Artes. Para ele o livro resulta da soma e reelaboração das suas múltiplas expressões artísticas. "O mais interessante da arte é esse processo de amadurecimento ao longo do tempo", afirma. Nas artes plásticas, no teatro, na música há um tempo de construção e maturação. "Nunca gravo a música assim que componho. Geralmente testo, vou ouvindo, vou mostrando em shows e ela vai tomando corpo". Assim nasceu o livro, construindo, refazendo. "Na verdade esses caminhos se cruzam o tempo todo. Despertei para a poesia aos 13 anos, com Estrela da vida inteira, de Manuel Bandeira. Depois li muito Machado de Assis ao mesmo tempo em que lia Fernando Pessoa e depois Guimarães Rosa, esse estudioso da linguagem do povo do sertão".
Menino tímido, passava horas "observando tudo e desenhando tudo: os prédios, as janelas, os telhados, as pessoas". Primeiro em Viçosa, onde nasceu, depois em São Paulo, para onde se mudou com a família na adolescência. Na escola era solicitado a desenhar os cartazes e capas de trabalhos. No interior de Minas, Cataguases, observava os painéis de Portinari na Universidade. Em São Paulo, quando podia, ia escondido assistir às aulas de desenho e pintura com modelo vivo na Faculdade de Belas Artes.
No tempo da Faculdade começou a cantar, compor, tocar violão, escrever peças teatrais. Participou da criação do grupo de teatro amador Purangaw, palavra que em tupi-guarani significa beleza. "Fui sendo tomado pela arte. A Arquitetura foi ficando pequena". No cotidiano, pesquisava nas bibliotecas (buscava brasilidades), ia à Faculdade, fazia os trabalhos de arquitetura e à noite tocava nos bares e restaurantes ou fazia contação de histórias no teatro. "Era o meu ganha pão: escrevia as histórias e contava, cantava". Gostou do palco. Largou a Faculdade no quinto ano. Assumiu o nome Cacau Brasil e decidiu ganhar o mundo e viver de arte.
Hoje mora numa casa agradável que abriga o ateliê de artes plásticas, a produtora Toca Brasil e o estúdio de gravações. Numa tarde de maio, vimos um pouco do movimento das equipes preparando detalhes do lançamento do livro, pintores tingindo de vermelho o teto da varanda e auxiliares domésticas se desdobrando em delicadezas servindo café, biscoitos e "o melhor doce de leite do mundo, feito na Universidade Federal de Viçosa", interior de Minas. Houve um instante de pausa para as delícias do doce, sentindo a brisa que sopra nas dunas da Praia do Futuro.
O futuro? "Tenho vários planos e objetivos, mas não sou rígido neles nem consigo mais ter um objetivo fixo. Quero continuar cantando, compondo, pintando, fazendo poesia. Esse livro, por exemplo, era para ter nascido antes da exposição". Escrevia o tratado da ignorância, pensando na importância do acesso ao conhecimento, à educação, pensava na Tapera das Artes, onde lida com arte-educação, tira meninos do risco. Ao mesmo tempo, pintava os quadros com grafismos, máscaras que espelham. "Surgiu a história da exposição e aquilo tudo foi virando uma performance cênico-musical que culmina com a palavra dita, com a música, a palavra musicada, expressa nas telas, refletida nos pilares da poesia, a palavra impressa no livro". A direção musical é de Marcos Resende, irmão mais novo de Cacau Brasil.
Lúcia Helena Galvão
especial para jornal O POVO

