O SENSÍVEL RETORNO DE CACAU COM CORES VIVAS E METAMORFOSE
“quantos aqui ouvem os olhos eram de fé...”
(Frevo Mulher/ Cacau cantando Zé Ramalho)
Dois anos depois de conhecer a ‘multifacetada’ carreira de Cacau (de saltimbanco de teatro da juventude à intérprete internacional da world art), percebo em SOS-SÓS que ele evoluiu a passos largos produzindo, com vigor assombroso, uma arte que tem referências no tempo, lugares e sentimentos que vivencia desde Minas, São Paulo, depois Ceará e o mundo.
Quando ainda tratávamos da exposição multimídia omisteriootempoempoesias - que cresceu em força de origem e acessibilidade na versão paulista, montada no impressionante cenário da Estação da Luz -, Cacau principiou a falar-me de seu projeto’ SOS-SÓS.
Sabia que suas sessões de pintura na madrugada eram – num certo sentido – até míticas. Alternadas com viagens para shows, exposições e eventos no Brasil e na Europa, são citadas pela energia e pulsação contagiantes, notáveis na explosão de cores dos ‘quadros’ quase-psicodélicos, que seguem sendo a expressão plástica mais expansiva deste misto de poeta, cantor popular, pintor e artista multimídia.
Mas foram muitas destas ‘míticas madrugadas’, pintando numa fúria mitológica, para que ele chegasse a essa produção de cerca de 30 telas, onde com cores e versos Dá corpo à SOS-SÓS. Signo mágico, SOS-SÓS remete às relações, ao amparo e ao desamparo, caindo como um relâmpago nestes dias em que o Rio vive seu ‘desconforto’ e pede SOS. Pintura em transe, solar e signográfica, bolo visual coberto de palavras-pássaros, sinais tempo, céu azul, ocre melado, vermelho ‘sangre’, sua plasticidade não propõe um neo-plasticismo, mas declara ‘sentimento’ de ‘bandeiras desfraldadas’, um brinde ao ‘país do carnaval’, a ‘travessia’ no Unhumbuquaquá do Uriquemquém...uma (im) pertinência.
No entanto, a interessante articulação de Cacau com as possibilidades de ‘todos os meios, ao mesmo tempo/agora’, não despreza possibilidades ‘da arte não escravizada aos meios’, desde que a percepção desperte, a mensagem seja transmitida, recado dado, a festa assumida.
Muitas interpretações são possíveis em torno da arte de Cacau, que atinge momento de ‘soltura conceitual’ em SOS SÓS. O que destaco, em minha reflexão, é que ele segue construindo sua obra sobre ‘os pilares da Poesia’, usando ‘letras como usa cores’, mesclando influências culturais, urbanas, regionais, populares, eruditas, musicais, plásticas, poéticas, teatrais.
Numa aparente catarse criativa (e com uma ‘levada’ auto-suficiente), Cacau mistura o colorido dos folguedos populares com a imagética do alfabeto, desconstrói versos transformando-os em signos, escritas pulsantes que atravessam o espaço, a tela, a instalação.
Aliás, novamente Cacau inclui a instalação (construída com fotos de jornais e farelo de vidro), a performance (com a participação de cerca 60 voluntários em ações públicas) e a acessibilidade (repetindo, na exposição de Fortaleza, a bela experiência realizada em São Paulo com o Instituto Mais Diferenças). Arte multimodal, expansiva e inclusiva.
O ‘Cacau que temos a satisfação de encontrar hoje’ não se propõe ‘artista de verdades absolutas’, mas um criador sensível em busca de novas possibilidades de deslumbramento através da arte.
E, nesse sentido (ou, na ausência de), está aberto às mudanças até o último instante (‘prefiro ser uma metamorfose ambulante, do que ter aquela mesma velha opinião formada sobre tudo’ – appud Raul Seixas).
Ele nos fala – com entusiasmo – da trilha musical para o vídeo desenvolvido para SOS SÓS, no qual o piano de Marcio Lomiranda tem papel fundamental e expõe a necessidade de interação dele com outros artistas.
E causará impacto a instalação que trata da mídia transformada em vidro líquido...’ou algo q o valha’...
Cacau reforça sempre o discurso das cores, da poesia, da música que sustentam o ‘mote’ da mostra. Discurso poético-visual atado aos sentimentos, nele o plano de rosas (vermelhas/brancas) sublinha o discurso amoroso, fragmentado nas tramas de cor e versos que remetem à Jackson Pollock, Jean-Michael Basquiát, José Roberto Aguilar.
Ao mesmo tempo, que cede ao discurso amoroso, enlevado por uma partitura elegante, Cacau se esbalda nas cores tropibacanas, tropicais, tropicalistas. E abre, com a realização de SOS SÓS, um horizonte novo em sua trajetória de muitas estações.
Paulo KLEIN
Crítico de Arte
Associação Brasileira de Críticos de Arte – ABCA
Associação Internacional de Críticos de Arte - AICA

